Filha do Mesmo Oceano by Iza Costa

Filha do Mesmo Oceano
Nasci em março, quando os ventos ainda conversavam com o verão e as águas guardavam reflexos de estrelas. Nasci sob o signo dos peixes, como se o destino já soubesse que meu coração pertenceria ao mar. Minha mãe navegava tranquila pelas águas de Angra dos Reis, entre ilhas adormecidas e montanhas cobertas de verde, quando eu, impaciente, decidi conhecer o mundo. Não esperei a chegada. Não esperei o amanhã. Chamaram-me as ondas, e eu respondi ao chamado. Assim cheguei, envolvida pelo perfume salgado da maresia e pela bênção silenciosa do oceano. Dizem que o mar testemunhou meu primeiro choro. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido esquecê-lo. No dia seguinte, pequena demais para compreender a viagem, retornei em um simples barco de pesca, embalada pelo balanço das águas, como se ainda estivesse nos braços da própria natureza. O barco seguia para Paraty. E eu seguia para minha história. Ali fui registrada. Ali cresci. Ali aprendi a ouvir o canto das ondas, a linguagem dos ventos, o segredo das marés. Foi em Paraty que meus pés conheceram a areia, que meus olhos aprenderam a procurar horizontes, e que minha alma descobriu a poesia. Hoje compreendo: não pertenço apenas a uma cidade. Pertenço a uma travessia. Sou filha das águas que unem Angra dos Reis e Paraty. Filha dos barcos que cortam a baía, das gaivotas que desenham o céu, das praias que guardam lembranças. O mesmo oceano que viu meu nascimento foi também aquele que acompanhou minha infância. E ainda agora, quando a saudade visita meu coração, é para ele que retorno. Porque há mares que banham a terra. E há mares que banham a alma. O meu fez ambos. Ele me viu nascer. Viu-me crescer. E continua morando em mim, como uma canção antiga que nunca chegou ao fim. @izacostapoeta

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